28.8.06

Surreal

Em homenagem à Vidha, que fez aniversário na semana passada, aí vai mais um texto da época do Butuca: Histórias da Lauro Muller 96.

Morávamos na mesma casa e trabalhávamos no mesmo lugar. Vidha tinha carro, um KAzinho sholes que morava na garagem porque no Rio vaga na rua é coisa rara. Por isso mesmo, e porque o 107 passa rápido, a gente sempre ia de busu para o trabalho. O trajeto Urca-Flamengo era tranqüilo na ida e engarrafado na volta, mas já estávamos acostumadas. Pelo menos não passávamos pelo stress das orações e mandingas à procura de uma vaguinha.

É, mas naquele dia foi diferente. Não sei por que, não sei mesmo, Vidha acordou e resolveu que ia levar o KA pra passear. Vamos de carro hoje, Cúia? Eu, que não gosto mesmo de andar de busu e adoro uma mamata, concordei na mesma hora. Fomos e por milagre conseguimos estacionar facilmente, uma rua atrás do nosso destino.

Sobre o dia, o que eu lembro é que ele foi punk. Correria danada, stress, loucura total. Acho que estou procurando uma justificativa plausível para o que aconteceu depois, mas é melhor contar primeiro...

Saímos da Mr. Vox lá pelas sete e meia da noite e, conversando sobre o trabalho, nos dirigimos para o ponto, onde pegávamos nosso busuzinho todas as noites. Demorou um pouquinho e lá veio ele. O 107 completamente lotado. Cansadas, não hesitamos e entramos naquele mesmo. Custou, mas finalmente duas pessoas saíram e eu sentei num banco e, na minha frente, Vidha sentou em outro. A hora do rush estava comendo solta. Um engarrafamento daqueles. Quando o ônibus fez menção de entrar na Praia de Botafogo, àquela hora completamente intransitável, ainda lembro que pensei como gostaria de estar dentro de um carro. Afinal, se assim fosse, pegaríamos o Aterro, caminho que naquele momento estaria bem mais livre. Enquanto isso, Vidha esbravejava sobre a infelicidade de ser pobre. Se tivéssemos dindin, pegaríamos um táxi e não passaríamos por aquele perrengue...

É. Mas essa não era a realidade. E, sem carro, a resignação era o que faltava. Mas a situação era dramática. Um calor, um aperto, um cansaço, um mau humor e assim eu e Vidha já não conversávamos sobre nada. Eu só mentalizava a minha casinha looonge...

Estávamos quase chegando, quando Vidha soltou um grito.
- Cúia!!!
E eu, já com medo de saber:
-O que foi?
E ela de novo:
- Cuia!!!
- Ai, meu Deus! O que foi???
- É muito grave!!!!
-Hã???
E ela, balançando a cabeça...
- É muito grave!!!

Bom, preciso dizer? Pra mim, na melhor das hipóteses, ela tinha acabado de ser assaltada, sei lá! Foi aí que ela tirou da bolsa um chaveiro e começou a balançar o maldito na minha frente.

P-u-t-a q-u-e p-a-r-i-u!!! O carro!!! O safado do KA estava lá, esperando a gente. Não era possível aquilo, não podia ser. Tudo bem que acontecesse com uma pessoa, mas ali eram duas!!! Não podia ser verdade. Fomos de carro e voltamos de ônibus...

Surreal. Rimos o resto do trajeto inteiro. Quando chegamos em casa, jantamos, esperamos o engarrafamento passar, chamamos um táxi e fomos buscar o pobre automóvel esquecido. Pobre? Pobre de nós, isso sim! Mas, pelo menos, até hoje, quando lembro daquela chave balançando no ar, me acabo de rir.

25.8.06

Sem brincadeira

Um, dois, três, salve todos!

24.8.06

Doc Comparato

No livro "Da criação ao roteiro", Doc Comparato propõe o seguinte exercício para entrelaçar a personagem com a ação dramática:

"Observar a própria história, a de algum familiar ou amigo. Tentar analisar as mudanças que sofreram os valores, atitudes e até comportamentos com o decorrer do tempo. Perante a vida, e em idênticas circunstâncias, cada um muda à sua maneira, convertendo-se numa personagem completamente diferente. Sem o sentirmos nas nossas vidas, traçamos arcos dramáticos como se fôssemos personagens de um grande filme, ou de uma série. Ou quem sabe somos?"

Hein? Hein? Quem sabe somos?

22.8.06

O mundo encantado de Luscas

Meu pai conhece um planeta secreto, um reino todo particular, pra onde ele escapa sempre que precisa se livrar dos absurdos da Terra. No mundo encantado de Luscas, honestidade é moeda valorizada e rende consciência tranqüila, reconhecimento e amizade. Lá, importar-se com os outros é corriqueiro e ninguém desconfia que existem lugares onde pensar em si – apenas em si - é o mais comum. No mundo encantado de Luscas não existem espertos, só justos. Não existem más intenções, só amizade gratuita. Não existem desumanos, só gente muito boa. Assim como ele.

12.8.06

Esquisito

adj. 1. Invulgar, raro, fino. 2. V. extravagante (2).

8.8.06

Mariah!!!

Hoje é o aniversário de uma graaande amiga, a leitora mais assídua do compota (pelo menos é a que mais comenta). Por isso, aí vai uma história que ela adooora.

Estava eu estudando na biblioteca da Puc, num belo dia de sol, quando recebi um telefonema. Do outro lado da linha, um prospect de trabalho me passava uma primeira tarefa. Teria que entrevistar Mariah Carey para um programa local. A conversa seria gravada na manhã seguinte, no hotel onde a estrela estava hospedada. Caracoles. E agora? Lembrei que o meu inglês andava enferrujado e na mesma hora liguei pra dona Bebs, que além de amiga e companheira de esparros, dominava a língua de Miss Carey. Fora a ferrugem, temi por desconhecer quase totalmente o trabalho da cantora. Eta zorra, teria que correr e nada melhor do que pedir um help a Beta. Larguei os estudos e me encontrei com ela em uma lan house. Fuçamos a Internet a tarde inteira e munidas de muita informação, rumamos para o Árabe do Shopping da Gávea. Lá formulamos perguntas e mais perguntas e treinamos insistentemente o diálogo que poderia acontecer na manhã seguinte. Várias vezes trocamos os papéis, ora eu era Mariah, ora era Bebs que representava a pop star.

Bueno, no outro dia, cheguei cedo ao hotel em São Conrado. Havia alguns fãs na entrada e não pude deixar de tirar certa onda por passar sem dificuldades. Encontrei a equipe da Bandeirantes e ficamos por lá esperando. Não preciso mentir, estava nervosa pelo simples fato de ter de haver uma gravação. Shit. E se eu não entendesse alguma coisa? E se meu inglês me traísse? Pensei muitas vezes em hipóteses mal sucedidas, porque tive muito tempo pra isso. Fiquei esperando em um salão cheio de cartas que seriam sorteadas por la Cahey. Era a promoção de uma rádio e todos ali só aguardavam a estrela chegar.

Mas já era tarde, quase 18:00, quando Mariah entrou no salão. Ouvimos os gritos da galera lá fora, e quase ao mesmo tempo, fui informada de que não teria tempo de formular pergunta nenhuma. Quando a vi, corri ao seu encontro junto com outros jornalistas, mas os seguranças brutamontes não deram trégua. Preocupada, assisti La Cahey mergulhar no monte de cartas e fazer poses e mais poses para os fotógrafos. Tudo muito rápido. E eu ali, com o microfone na mão e o cinegrafista a me seguir, só fazia gritar: Mariah! Mariah! Quando ela ensaiou encerrar a sua aparição, quase me desesperei e saí atropelando todo mundo até ficar ao seu lado. Aí só tive tempo de pedir para ela repetir comigo a vinheta do programa. Só isso.

Suspirei aliviada pelo mínimo que consegui e é disso que Dona Bebs mais gosta. Porque quando mostrei o vídeo do programa a ela, ela riu muito pelos 5 segundos de gravação, mas muito mais pelo meu suspiro aliviado que ficou registrado na fita. Haha. Valeu, Bebs.

7.8.06

Avionada

Nasceu o avionada.blogspot.com. Ou estreou, seguindo o raciocínio de Nizan Guanaes sobre todos os baianos. Haha. Porque o avionada é, sobretudo, isso: um blog baiano, ou melhor, soteropolitano. Mas é um trombone que se propõe a desafinar de raciocínios bocós e jogar tinta na imagem de perfeição que às vezes emperra essa terra boa. Tá aí não só para exaltar os dias de festa e alegria deslavada como para narrar os engarrafamentos de uma cidade-província atropelada. Axé.